quinta-feira, 2 de abril de 2015

Capitulo XIII

De volta ao quarto de pé a beirada da cama onde se encontra sua filha deitada. Tenta passar seus braços por baixo dela, para facilitar o levantamento da mesma. Primeiros seus dedos que deslizam entre os lençóis e o pijama como se fossem uma cobra deslizando na areia. Depois seus braços. Até que começa a puxar lentamente o peso morto para a beira da cama. Após algumas tentativas consegue o seu objectivo. A sua respiração aumentou juntamente com o bater do seu coração. As suas forças não são que eram nos dias do passado. Agora seu corpo é frágil, quase sem nenhuma utilidade. Apenas mais uma velharia de um mundo passado. Agora chega a parte mais difícil a levantar no ar. Podia puxar a cadeira de rodas até a sua beira o que facilitava o transporte até a casa de banho, mas prefere a levar elevada em seus braços. É a única parte do dia em que a sente ali com ela. Que sente o batimento do seu coração. Um bater automático que lhe relembrar que ela continua viva. Que a relembra que ainda há esperança. Ainda a alguns dias atrás ouviu na radio que cada vez mais há pessoas a voltarem a si. Por isso ainda há esperança para ela. Quem ama será sempre recompensado. É assim que ela gosta de pensar. Não abandonou os antigos Deuses como a maioria das pessoas o fez após o desastre ter ocorrido. Não ela ainda se devotou mais a eles. Agora mais do que nunca lhe suplica pela sua ajuda. Mas agora como sempre nunca obtém uma resposta vinda de eles. Não encara sendo um sinal que prova a sua não existência. Encara como ainda não sendo digna da atenção dos seus criadores. Seus joelhos dobram e seus braços mais firmes do que nunca começam a levantar no ar o corpo da menina. Os fechando como se fossem um concha fazendo o corpo repousar contra o seu. O seu longo cabelo cai-lhe por costas e sua cabeça encostada em seu ombro. Consegue sentir a sua respiração contra sua pele. Consegue sentir a vida vinda do seu corpo, mas não a consegue ver. Passo após passo. Passos lentos e pesados que fazem o chão tremer com o peso provocado pelas duas. Ecoam pela porta até ao corredor. Do corredor até a porta da casa de banho. Se encosta um pouco a parede. Tentado recuperar um pouco do fôlego. Respirar fundo, uma, duas, três vezes e continuar caminhando até chegar a uma velha cadeira modificada para conseguir a sentar sozinha sem que ela cai abaixo. Os seus braços voltam a descer lentamente, com muito cuidado como quem pousa um copo de cristal com medo de o partir a pousa na cadeira. A enorme nuvem de espuma agora já se partiu em muitas nuvens mais pequenas e entre elas se pode ver o pequeno pato laranja.
- Olha o teu pato! Olha...
As lágrimas tomam posse dela. Caindo sobre o seu rosto, o lavando, até fazem o salto do seu rosto para o pijama da filha onde se perdem entre o tecido. Mas algo mais profundo se junta as lágrimas. Algo que nasce de segredos escondidos em seu coração e são projectados em formas de gritos.
- Porque não olhas? Olha para o raio do pato. Porque não olhas?...
Agora com as ultimas palavras perdendo a intensidade de grito para palavras de dor. Deixando sua cabeça cair sobre o corpo da filha. Chorando mais do que um tempestade, a abraçando com mais força de que as raízes de uma árvore.

- Desculpa. Por favor de desculpa. Eu sei que estas ai dentro. Eu sei que vais voltar para mim. Eu não queria gritar contigo. Por favor me desculpa...

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