De volta ao quarto de pé a beirada da cama
onde se encontra sua filha deitada. Tenta passar seus braços por baixo dela,
para facilitar o levantamento da mesma. Primeiros seus dedos que deslizam entre
os lençóis e o pijama como se fossem uma cobra deslizando na areia. Depois seus
braços. Até que começa a puxar lentamente o peso morto para a beira da cama. Após
algumas tentativas consegue o seu objectivo. A sua respiração aumentou
juntamente com o bater do seu coração. As suas forças não são que eram nos dias
do passado. Agora seu corpo é frágil, quase sem nenhuma utilidade. Apenas mais
uma velharia de um mundo passado. Agora chega a parte mais difícil a levantar
no ar. Podia puxar a cadeira de rodas até a sua beira o que facilitava o
transporte até a casa de banho, mas prefere a levar elevada em seus braços. É a
única parte do dia em que a sente ali com ela. Que sente o batimento do seu
coração. Um bater automático que lhe relembrar que ela continua viva. Que a
relembra que ainda há esperança. Ainda a alguns dias atrás ouviu na radio que
cada vez mais há pessoas a voltarem a si. Por isso ainda há esperança para ela.
Quem ama será sempre recompensado. É assim que ela gosta de pensar. Não
abandonou os antigos Deuses como a maioria das pessoas o fez após o desastre
ter ocorrido. Não ela ainda se devotou mais a eles. Agora mais do que nunca lhe
suplica pela sua ajuda. Mas agora como sempre nunca obtém uma resposta vinda de
eles. Não encara sendo um sinal que prova a sua não existência. Encara como
ainda não sendo digna da atenção dos seus criadores. Seus joelhos dobram e seus
braços mais firmes do que nunca começam a levantar no ar o corpo da menina. Os
fechando como se fossem um concha fazendo o corpo repousar contra o seu. O seu
longo cabelo cai-lhe por costas e sua cabeça encostada em seu ombro. Consegue
sentir a sua respiração contra sua pele. Consegue sentir a vida vinda do seu
corpo, mas não a consegue ver. Passo após passo. Passos lentos e pesados que
fazem o chão tremer com o peso provocado pelas duas. Ecoam pela porta até ao
corredor. Do corredor até a porta da casa de banho. Se encosta um pouco a
parede. Tentado recuperar um pouco do fôlego. Respirar fundo, uma, duas, três
vezes e continuar caminhando até chegar a uma velha cadeira modificada para
conseguir a sentar sozinha sem que ela cai abaixo. Os seus braços voltam a
descer lentamente, com muito cuidado como quem pousa um copo de cristal com
medo de o partir a pousa na cadeira. A enorme nuvem de espuma agora já se
partiu em muitas nuvens mais pequenas e entre elas se pode ver o pequeno pato
laranja.
- Olha o teu pato! Olha...
As lágrimas tomam posse dela. Caindo sobre o
seu rosto, o lavando, até fazem o salto do seu rosto para o pijama da filha
onde se perdem entre o tecido. Mas algo mais profundo se junta as lágrimas.
Algo que nasce de segredos escondidos em seu coração e são projectados em
formas de gritos.
- Porque não olhas? Olha para o raio do pato.
Porque não olhas?...
Agora com as ultimas palavras perdendo a
intensidade de grito para palavras de dor. Deixando sua cabeça cair sobre o
corpo da filha. Chorando mais do que um tempestade, a abraçando com mais força
de que as raízes de uma árvore.
- Desculpa. Por favor de desculpa. Eu sei que
estas ai dentro. Eu sei que vais voltar para mim. Eu não queria gritar contigo.
Por favor me desculpa...
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