A menina é a primeira a passar porta, seguida
do Peixe-Esqueleto. A paisagem é algo que não se descreve em palavras, ou se
ilustras com tintas. É algo que na imaginação dos seus viajantes. A paisagem
que os espera do outro lado da porta é diferente de todo aquilo que ela
esperava. Mas antes de enxergar o mundo que se encontra a sua frente olha para
suas mãos. Agora maiores e com uma pele cheia de rugas. Não é mais uma pequena menina
de seis anos. Agora é uma idosa de idade com uma idade que ela não consegue
perceber . Sua pele branca e delicada foi trocada por uma nova, mais parecida
as escamadas de uma cobra no fim do seu ciclo. Não consegue enxergar o seu
rosto. Ali existem milhares de coisas novas e maravilhosas mas nenhuma delas é
um espelho. Ao seu lado o Peixe-Esqueleto esse mantém o seu aspecto. Apenas uma
pequena diferença no seu rosto. Onde no outro lado da porta ficavam os seus
olhos negros, agora residem uns olhos castanhos. A cor de seus olhos, o preço a
pagar pela passagem. Neles consegue ver o seu reflexo. O seu rosto envelheceu
décadas como nunca antes tinha imaginado. Seus cabelos são mais curtos e branco
como a neve das montanhas mais altas. Sobe suas mãos até ao seu rosto. O
acariciando, descobrindo um novo toque. Experimenta suas pernas com um pequeno
passo em frente. E sorri. Sorri, porque ainda se encontra livre. Apenas foi seu
corpo que envelheceu, sua alma continua jovem como sempre e tem um novo mundo
inteiro para descobrir. Mas antes que o possa fazer é interrompida pelo
Peixe-Esqueleto agora com uma maior expressão facial devido a nova cor de seus
olhos. Olhando para o rosto dela. Vendo um corpo que ele mal reconhece a sua
frente. Vendo a cor antiga dos seus olhos negros nos olhos dela. Não consegue
perceber porque ela sorri. Quando lhe aconteceu ele chorou tanto que não quis
mais ficar ali.
- Porque sorris? Teu corpo envelheceu. Toda a
sua beleza e inocência se perdeu. Estas a deslumbrar um futuro que todos tentam
evitar que ele chegue. Se quiseres podemos passar por uma nova porta. Pode-mos
encontrar algo mais belo e encantador para tu usares.
Ele não percebe. Ela sabe que ele nunca vai
perceber. Ele apenas deseja ficar mais completo a cada passo enquanto ela não
importa o preço que paga apenas quer poder andar, sorrir, saltar, falar. Falar,
sim ela pode falar mas ainda não o fez. Achou que está na hora de voltar a
ouvir a sua voz. Ou melhor descobrir como a sua voz vai suar no futuro. Assim é
esta voz que vai usar para se despedir dos seus entes criados e agradecer ao
simpático ceifeiro que for designado para a vir buscar quando a hora chegar.
Então pela primeira vez em muitos anos ela volta a falar. No inicio não são
palavras que saem da sua boca. Apenas sons e ruídos estranhos. Testando se pode
mesmo falar. Assim que se apercebe que sim. Fala suas primeiras palavras.
- Porque não haveria eu de sorrir meu amigo?
Estamos rodeados de coisas imagináveis e impossíveis. Tantas coisas novas para
descobrir e provar. Anda vamos descobrir o que são aquelas montanhas
cor-de-rosa lá ao fundo. A porta pode esperar para mais logo. Anda.
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