sexta-feira, 27 de março de 2015

Capitulo VII

Entra no quarto como se estive a entrar num território desconhecido. Sem nenhuma expressão facial. Quase como se não tivesse sentimentos. Mas se olhar-mos por baixo da mascara de pele encontramos uma escuridão que se propaga por todos os cantos de seu corpo. Uma tempestade com ventos fortes e chuvas torrenciais que alagam toda a paisagem que encontram. No seu lugar deixam buracos negros sem fundo, onde se escondem segredos. Segredos que nunca podem ver a luz do dia. Se alguma vez o fizerem será o fim dela. Poucos passos são necessários até alcançar finamente a cama onde a sua filha descansa quase que eternamente. Pousa uma ultima vez o recipiente na mesa de cabeceira e se senta lentamente na cama. Com o seu peso, apesar que mínimo seja faz com que o colchão ceda em sua direção fazendo o corpo lá deitado se mover. Por aqueles breves segundos pode-se ver cor regressar aos seus olhos. Apenas um rápido reflexo, uma esperança que nega ser engolida pela a escuridão que a habita. Com seus braços tentar levanta-la um pouco mais. Com muito esforço físico e gemidos de dor pronunciados entre seus dentes cerrados, finalmente consegue erguer-la. Agora que meio deitada, meio sentada, relembrando uma boneca de porcelana.
Assim começa a alimentar. Com uma colher meio que cheia numa mão, na outra abrindo suavemente e lentamente sua boca. Aquele momento a remonta até a sua infância quando brincava com suas bonecas, as alimentados com comida faz de conta. Agora que cresceu, envelheceu, que conheceu a vida. Voltou a se tornar naquela criança alimentado as suas bonecas. Mas a alegria e curiosidade que sentia quando era pequena foi substituída por angustia e desejo. Desejo se odeia por sentir. Mas não seria todo mais fácil se a sua "boneca" parti-se. Quando era criança tinha imaginação suficiente para lhe dar vida as suas bonecas. Eram princesas, rainhas, algumas eram monstros das historias de sua mãe. Mas agora não tem mais imaginação para conseguir trazer vida a sua mais preciosa. Se recorda do dia em que ela nasceu, o dia em que ela herdou as suas bonecas, que agora se encontram sentadas na prateleira mais alto do quarto. Foi como na historia do Pinóquio. Tinha algo que não precisava de imaginação para viver. Algo capaz de aquecer o seu coração nas noites mais frias de Inverno agora extinto. Algo capaz de florescer flores na sua alma mesmo no Outono. Algo capaz de fazer magia, transformar lágrimas em sorrisos de pura alegria.
Algo que agora tem que voltar alimentar. Não com sorrisos como era no inicio, com lágrimas que caiem sobre a comida.
Os minutos passam por aquele momento. Ela volta a recuperar seu rosto sem expressão. Não gosta de chorar em frente dela. No fundo a esperança que ela ainda a consiga ver, ou compreender não a deixam sentir-se bem quando o faz.

A ultima colher meio que cheia de legumes em forma liquida voa pelo espaço entre as duas como uma pequenas estrela verde e prateada a caminho de um buraco negro onde entra e volta a sair vazia.

Sem comentários:

Enviar um comentário