Entra no quarto como se estive a entrar num
território desconhecido. Sem nenhuma expressão facial. Quase como se não
tivesse sentimentos. Mas se olhar-mos por baixo da mascara de pele encontramos
uma escuridão que se propaga por todos os cantos de seu corpo. Uma tempestade
com ventos fortes e chuvas torrenciais que alagam toda a paisagem que
encontram. No seu lugar deixam buracos negros sem fundo, onde se escondem
segredos. Segredos que nunca podem ver a luz do dia. Se alguma vez o fizerem
será o fim dela. Poucos passos são necessários até alcançar finamente a cama
onde a sua filha descansa quase que eternamente. Pousa uma ultima vez o
recipiente na mesa de cabeceira e se senta lentamente na cama. Com o seu peso,
apesar que mínimo seja faz com que o colchão ceda em sua direção fazendo o
corpo lá deitado se mover. Por aqueles breves segundos pode-se ver cor
regressar aos seus olhos. Apenas um rápido reflexo, uma esperança que nega ser
engolida pela a escuridão que a habita. Com seus braços tentar levanta-la um
pouco mais. Com muito esforço físico e gemidos de dor pronunciados entre seus
dentes cerrados, finalmente consegue erguer-la. Agora que meio deitada, meio
sentada, relembrando uma boneca de porcelana.
Assim começa a alimentar. Com uma colher meio
que cheia numa mão, na outra abrindo suavemente e lentamente sua boca. Aquele
momento a remonta até a sua infância quando brincava com suas bonecas, as
alimentados com comida faz de conta. Agora que cresceu, envelheceu, que
conheceu a vida. Voltou a se tornar naquela criança alimentado as suas bonecas.
Mas a alegria e curiosidade que sentia quando era pequena foi substituída por
angustia e desejo. Desejo se odeia por sentir. Mas não seria todo mais fácil se
a sua "boneca" parti-se. Quando era criança tinha imaginação
suficiente para lhe dar vida as suas bonecas. Eram princesas, rainhas, algumas
eram monstros das historias de sua mãe. Mas agora não tem mais imaginação para
conseguir trazer vida a sua mais preciosa. Se recorda do dia em que ela nasceu,
o dia em que ela herdou as suas bonecas, que agora se encontram sentadas na
prateleira mais alto do quarto. Foi como na historia do Pinóquio. Tinha algo
que não precisava de imaginação para viver. Algo capaz de aquecer o seu coração
nas noites mais frias de Inverno agora extinto. Algo capaz de florescer flores
na sua alma mesmo no Outono. Algo capaz de fazer magia, transformar lágrimas em
sorrisos de pura alegria.
Algo que agora tem que voltar alimentar. Não
com sorrisos como era no inicio, com lágrimas que caiem sobre a comida.
Os minutos passam por aquele momento. Ela
volta a recuperar seu rosto sem expressão. Não gosta de chorar em frente dela.
No fundo a esperança que ela ainda a consiga ver, ou compreender não a deixam
sentir-se bem quando o faz.
A ultima colher meio que cheia de legumes em
forma liquida voa pelo espaço entre as duas como uma pequenas estrela verde e
prateada a caminho de um buraco negro onde entra e volta a sair vazia.
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