quinta-feira, 5 de março de 2015

Imortalidade - Marta

O ano era! sinceramente o que importa qual era o ano, dia, ou hora. Quando se vive para sempre essas coisas meio que se perdem aos poucos como areia num saco furado por uma navalha cega. Humanidade dá imensa importância ao tempo. O seu tempo é limitado, por isso adoram dar significados aos dias. Começam pelo dia em que nascem. O dia em que começaram a namorar. O dia em que se casaram. O dia do primeiro beijo. O dia do primeiro acto sexual. O dia em que um pais se tornou independente da escravidão de outro. Como se esse direito não lhe pertence-se no dia em que foi criado. Cada dia, uma nova data para celebrar. Quando o teu tempo é limitado não se deve esperar pela data que gravamos em nossa memoria como a correcta para celebrar, para dizer o quando ama-mos o outro. Ou o quando o odiamos. Quando o tempo é limitado deve-mos celebrar todos os dias, todos os motivos que nos fazem feliz, tristes. Que nos dão dor, nos fazem chorar. Que nos tornam no que somos. Bons ou maus. Afinal esse conceito não passa de precisão de ver as coisas. Certo ou errado. Não são opostos. São sinónimos.

Quando se vive para sempre não importa o ano que se esta. Por isso que o ano não é relevante em minha memoria. Apenas aquela visão de Deusa reencarnada no corpo de uma mortal. Com seus longos cabelos castanhos e seus olhos verdes. Todas as manhas eram como acordar numa casa de campo e olhar pela janela, ficando a deslumbrar os longos vales silvestres. Os seus lábios. Não prefeitos. Apenas simples e doces. Um relembre que as melhores coisas da vida são as mais singelas. Seus vestidos. Numa época onde o encanto ainda se encontrava no tecido que cobria a pele de quem os vestia.

Marta era o seu nome. Os nomes são importantes para quem esta condenado a esquecer o seu. Um nome tão belo, digno de uma princesa. O nome que eu daria a uma filha se não fosse amaldiçoado. Eu posso procriar. Posso criar vida perfeita. Não amaldiçoada. Posso criar vida órfã. O que eu me recuso a fazer. Já existe demasiado sofrimento no mundo. Não precisa de eu criar mais.
Marta de olhos verdes. Minha Marta. Prefeitos sete anos da minha vida. Até há manha onde todo foi rescrito novamente para mim. Ela Marta, eu outro nome. De seu grande amor, para um desconhecido tentando a fazer sorrir num bar. Não é tarefa difícil, quando se sabe todo sobre a pessoa ao lado. Ela acreditava em amor a primeira vista. Eu acreditava que merecia viver para sempre ao seu lado não importava o custo.

Se apaixonou novamente pelo velho amante. Cria-mos uma nova vida. Era viver um constante passado, mas ao seu lado todo parecia novo. As suas novas piadas, antigas para mim, sempre me surpreendiam e seus jogos no calar da noite sempre me deixavam a quer mais.

A terceira década se tornou mais difícil para ela acreditar no novo eu. Ela envelhecia, eu continuava jovem. A diferença de idades tornava difícil ela acreditar que eu a amava. Que eu a desejava. Mas ao meu olhar ela permanecia jovem como no primeiro dia em que a deslumbrei. Na quarta e quinta década limitei-me a ser um bom amigo. Um amigo que estava sempre ao seu lado. Ela nunca percebeu o porque eu desperdiçava os meus dias ao seu lado. Segundo ela, um jovem belo como eu devia estar a procura de uma noiva e não passar os dias ao lado de uma velha sem graça. O que ela não sabia era que eu estava com minha noiva.

Minha doce Marta. A única por quem fiquei até ao fim. A que mais feliz me fez. A que mais sofri. A visita do anjo da morte foi inevitável. Por mais que eu combate-se contra ele. Lhe oferecendo novos corpos para ele levar no seu lugar. Mas um dia foi inevitável ele a levou para longe de mim. Para um lugar onde eu nunca a vou poder visitar. Um lugar onde ela sempre estará sozinha. Porque eu foi egoísta e a quis sempre para mim. Nunca a deixei parti.Eu a condenei, a uma eternidade de solidão.

Sem comentários:

Enviar um comentário