Passamos os ponteiros do relógio para uma cena
já nossa conhecida. Deixamos o dia correr em nossa imaginação, deixando nos
voltar a envolver pela a escuridão da noite que se faz abater novamente sobre
as palavras escritas. Com a escuridão viajamos novamente para o outro lado onde
esperávamos encontrar a sala empoeirada com a jovem donzela e o misterioso
esqueleto de peixe-esqueleto que responde pelo nome de Peixe-Esqueleto. Mas
deslumbramos uma paisagem diferente. A porta foi aberta e com ela o cenário sombrio
ficou para trás. Agora flores de todas as cores crescem por colinas a perder de
vista. No meio das flores duas falhas, uma pequena e outro maior. Deitados
sobre as flores esta ela agora com o corpo de uma criança de seis anos cheia de
inocência. E ao seu lado o Peixe-Esqueleto. Agora por entre seus olhos,
espinhas, camisa e casaco deslumbramos algo novo. Algo encarnado, que bate
suavemente no seu peito. É metade do coração que ela pagou para abrir a porta.
Agora lhe pertence. No seu rosto podemos ver um novo sorriso. Um sorriso capaz
de transmitir alegria e vontade de correr pelas colinas. Com suas barbatanas
ágeis como se fossem braços arranca uma flor e a lança ao ar. Como por magia a
flor começa a voar lentamente. Subindo, subindo como um balão de ar quente até
aos céus.
- São flores de ar quente - Lhe diz ele, agora
com uma voz mais simpática e alegre do que no seu ultimo encontro. - Queres ver
algo incrivelmente magico?
A menina abana com a cabeça que sim. Seus
cabelos agora ruivos dançam sobre o seu rosto cobrindo como cortinas os seus
olhos castanhos de terra fresca numa manha de Outono. Seus caracóis relembram
as ondas de um Oceano calmo, onde se pode navegar tranquilamente, até ao cair
do manto estrelar.
- Sim? Então anda comigo. Vamos pegar o máximo
de flores que conseguirmos. O máximo de cores diferente que encontramos.
Assim os dois partem numa corrida pelos vales,
deixando um rasto de flores a voar atrás de si. Cada toque de seus pés, cada
flor que levanta voo como um corpo celeste. As suas mãos e barbatanas agarram o
máximo de flores que conseguem enquanto correm como loucos. Ao fim de poucos
minutos as flores conhecidas são tantas que seus rostos deixam de ser visíveis.
No Peixe-Esqueleto só se consegue ver a sua alta cartola, enquanto a menina
desapareceu entre as flores de tantas cores, quantas do arco-íris. Não
demorando muito mais os pés pequenos da menina começam a se levitar lentamente
do chão sem que ela dá conta. Encantada com o momento de alegria que enche sua
metade de coração e sua alma. Alegria como não se lembra de sentir. Centímetro,
após centímetro, até levita mais alto do que as flores. Ai que o
Peixe-Esqueleto repara e se começa a rir. Um sorriso genuíno vindo do seu novo
bocado de humanidade. Pousa gentilmente as suas flores de ar quente, as
mandando estares quietas. Como se entendem suas palavras as flores permanecem
presas ao solo sem se elevar nos céus como as suas vizinhas. Lança suas
barbatanas e agarra a menina.
- Pronto já temos flores que cheguem. Não te
queremos a voar por ai sozinha. - Dizendo ele sempre sorridente. - Agora vós
também estais quietas até que vós mandem voar.
Mais uma vez as flores obedecem aos seus
comandos e não elevam a menina no ar. Agora juntos erguem suas mãos no ar com
todas as flores prontas para voar. Assim que recebem o comando do
Peixe-Esqueleto começam a se elevar lentamente, todas juntas. Aos poucos
começam a se separar umas das outras. Consegue se sentir uma pequena brisa
provocada pelo seus voos. Se pode quase ouvir elas conversando entre si. Se
juntam numa dança magica de cores nos céus. Algo tão belo e magico, que não
cabe em meras palavras. Podemos imaginar como se fosse uma dança de milhares de
estrelas de cores diferentes no manto negro da noite. Dançam, até se juntarem aos
poucos. Ganhando formas, cada vez mais se juntando. Assim que a dança termina o
céu ficou ilustrado com a imagem da menina com o Peixe-Esqueleto, os dois
juntos sobre um arco-íris. Um retrato feito em flores de ar quente que sobrevoa
as suas cabeças. Os dois ficam sorrindo, até que continuam a sua viagem pelos
vales das flores.
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