quinta-feira, 5 de março de 2015

Imortalidade - Trigo

Alguma vez acordaram num campo de trigo ao lado de um espantalho vestido igual a vos. Uma copia idêntica. Um espelho em três dimensões. Olhavam no rosto do espantalho e em seus olhos dois enormes botões de cores diferentes. Imóveis. Mantidos no local errado. Com as dimensões erradas. Mas por alguma razão eles tinham mais vida do que os nossos. Aquela copia vazia de palha, tinha mais alguma do que alguma vez nos tivemos. É assim que eu me sinto cada vez que vejo o meu reflexo. Pior que um espantalho. Pois ele sabe o seu propósito. Sabe o objectivo da sua criação. Assustar inocentes animais que apenas se querem alimentar. Eles são o pesadelo de muitos. Mas o que acontece quando algo novo surge. Algo que é feito do tecido dos pesadelos. Então quem é que salvaguarda o trigo do inocente animal que apenas se quer alimentar?
Sou eu. Somos nos irmãos. Os animais inocentes que apenas querem se alimentar. Mas quem é o vosso espantalho. Quem é que vos vai proteger de nos. Quem vai manter os campos de trigo salvos da nossa sede?

Autocontrole. Uma palavra tão elegante. Conseguir nos controlar, não importa em que situação. Autocontrole é o nosso espantalho que apodreceu com os anos. Autocontrole, comer apenas o necessário para sobrevivência. Roubar o que não nos pertence sem que ninguém se aperceba que foi roubado. E quando desejamos ser gulosos. Quando desejarmos um pouco mais. Quando o dia correu mal e desejarmos um copo para acalmar os nervos. Quando o inocente animal com fome perde o respeito pelo o espantalho podre. Quem vai os salvar agora?

Fome e gula vivem de mãos dadas. Quando nos preservemos já largamos a fome e estamos namorando a gula. E a gula é amiga intima com a vaidade. E nos somos Vaidosos. Nos somos perfeitos por criação. Não precisávamos mas somos. Nos conhecemos o nosso trigo. Sabemos que as melhores colheitas nem sempre são as que se apresentam melhor. As vezes as melhores são aquelas que ninguém repara nelas. São as que não precisam de provar que são melhores. São originais e por isso são felizes. E ninguém gosto de comer uma refeição triste. Todo mundo quer uma refeição feliz.

Mas fome não é a única coisa que nos deriva. Somos animais como todos. Temos todos as mesmas necessidades. Todos queremos anunciamos pelos mesmo prazeres. Todos temos corações. Uns mais luminosos do que outros. Mas até os mais escuros são capazes de amar. E quem deseja amar algo triste. Que perde seu tempo tentando agradar um mundo que não a merece. Queremos amar as coisas originais. As que percebem que a beleza esta no espírito e não na aparência.

E então o que acontece quando nos apaixonamos pelo trigo que queremos comer. Vai ser o nosso amor por ele um espantalho novo cheio de virtude digno de nos causar pesadelos. Ou vai ser mais um espantalho podre que com o tempo vai ceder a nossa fome.

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